quarta-feira, 10 de maio de 2017

Capítulo XLIX - A Obra de Cristo Através de Seu Espírito

Capítulo XLIX

 

A Obra de Cristo Através de Seu Espírito

 

A obra do Espírito na salvação do Novo Testamento é a obra do Cristo ressuscitado. Em todas as gerações da era da Igreja, Cristo continua a obra na vida dos crentes devotados através de Seu Espírito.

 

O Espírito Santo é o poder de Deus. Os termos poder e espírito podem ser usados indistintamente. Deus executa Sua poderosa obra através do Seu poder. Através do Seu Espírito, Deus criou o universo (Jó 26:13) e deu vida à humanidade (Jó 33:4). Através do Seu Espírito, Deus deu força a Sansão (Juízes 14:6; 15:14), sabedoria para Salomão e inspiração aos escritores das Sagradas Escrituras (2 Pedro 1:21). O Espírito de Deus deu vida a Jesus (Lucas 1:35; Mateus 1:20) e o habilitou a operar milagres (Mateus 12:28; João 3:34). Através desse poder, Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos para a imortalidade (Romanos 1:4; Efésios 1:19,20). Essas obras divinas foram diferentes em propósito, mas um único Espírito de Deus foi o meio imutável para executá-las.

 

 

I. O Espírito Concedido por Cristo

 

Quando o Cristo ressuscitado ascendeu ao céu e foi exaltado à destra de Deus, o Pai fez de Seu Filho o canal pelo qual o Seu Espírito transformador seria usado na salvação dos pecadores.

 

Deus sozinho criou, sustenta e cuida do universo físico. Deus opera todas as obras da salvação, porém, através de Seu Filho, Jesus Cristo. Jesus é o único mediador entre Deus e a raça humana. Deus concede o Seu Espírito sobre os crentes somente através de Cristo. Todas as criaturas têm o Espírito providencial de Deus (Salmos 104:30), mas somente os cristãos têm o Seu Espírito redentor. Toda a humanidade pode acessar diretamente o Espírito providencial de Deus; o contato com o Espírito redentor é somente através de Cristo.

 

Portanto, Deus fez de Seu Filho o guardião e o canal de Seu poder em relação à salvação do homem. Cristo explicou aos discípulos que quando Ele fosse exaltado à destra de Deus, Ele receberia o Espírito de Deus e então lhes concederia. “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito da verdade, que procede do Pai, testificará de mim” (João 15:26). “Todavia digo-vos a verdade: que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviá-lo-ei” (João 16:7). “E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai” (Lucas 24:49).

 

O acontecimento histórico desse evento está registrado em Atos 2:32,33: “Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis”. Cristo recebeu de Deus o Espírito e o outorgou sobre a Sua Igreja.

 

 

II. O Cristo que Habita em Nós

 

O Espírito Santo, como mencionado em Atos e nas Epístolas, é o poder através do qual Cristo executa Sua obra de salvação. Sempre que o Espírito é mencionado como fazendo alguma obra durante a dispensação da Igreja, é o equivalente a dizer que Cristo está fazendo essa obra. O Cristo que habita em nós e o Espírito que habita em nós são expressões equivalentes. Nas cartas de Paulo, o Espírito é identificado como o poder de Cristo ou o Espírito de Cristo.

 

Filipenses 1:19         O Espírito de Jesus Cristo

Romanos 8:9             O Espírito de Cristo

Gálatas 4:6                 O Espírito de seu Filho

Romanos 8:2             O Espírito de vida, em Cristo Jesus

2 Coríntios 3:17        O Senhor é Espírito

 

As escrituras que dizem que o Espírito está dentro do crente ensinam a mesma verdade ao afirmarem que Cristo está dentro do crente.

 

Espírito no Crente

 

João 14:17                 Espírito de verdade estará em vós

Romanos 8:9             Espírito de Deus habita em vós

Romanos 8:9             Se alguém não tem o Espírito

Romanos 8:11           Espírito que em vós habita

Gálatas 4:6                 Enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho

1 Coríntios 3:16       O Espírito de Deus habita em vós

1 Coríntios 6:19        Templo do Espírito Santo

Efésios 2:22               Morada de Deus no Espírito

2 Coríntios 1:22        Penhor do Espírito em vossos corações

Efésios 5:18               Enchei-vos do Espírito

João 7:38,39              Rios de água viva, disse ele do Espírito

 

Cristo no Crente

 

Gálatas 2:20               Cristo vive em mim

João 15:4                     E eu, em vós

Apocalipse 3:20        Entrarei e cearei com ele

Romanos 8:9,10        Se Cristo está em vós

Colossenses 1:27      Cristo em vós, esperança da glória

2 Coríntios 13:5        Cristo em vós, exceto os reprovados

Efésios 3:16,17          Cristo habite em vossos corações

João 17:21,23,36       Eu neles

João 14:20-23            Faremos nele morada

Efésios 1:23                Seu corpo, daquele que cumpre

Gálatas 4:19               Até que Cristo seja formado em vós

 

Essas escrituras nos instruem que Cristo habita no crente através do Seu poder e presença, que é o Espírito. Nosso Senhor expressou o mesmo pensamento quando Ele apresentou as duas colocações: “o Consolador... virá a vós” (João 16:7) e “voltarei para vós” (João 14:18). Em 1 João 3:24 nós lemos: “... e nisto conhecemos que Ele está em nós: pelo Espírito que nos tem dado”. As seguintes frases sinônimas ocorrem em Romanos 8:9-11: “O Espírito de Deus habita em vós; mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo; Se Cristo está em vós; se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós”. Essas frases são usadas indistintamente; elas expressam o mesmo pensamento. Em Efésios 3:16,17, nós lemos: “Para que, segundo as riquezas da Sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo Seu Espírito no homem interior; para que Cristo habite, pela fé, no vosso coração...”. Em outras palavras, o Cristo glorificado assentado à mão direita de Deus no céu, habita na vida dos crentes por meio do Seu Espírito.

 

É importante reconhecer que Cristo é superior ao Espírito. Cristo é uma pessoa; o Espírito é Seu poder. Cristo é o que faz a obra; o Espírito é o meio através do qual Ele opera. Por esse motivo, a ênfase deve ser colocada sobre a doutrina da obra de Cristo através do Espírito, em vez da doutrina do Espírito como um pensamento à parte. A confusão surge quando a atenção está centralizada sobre um simples pensamento abstrato; a conversão surge quando a atenção está centralizada sobre uma pessoa gloriosa que está operando através do Seu poder e presença. A obra do Espírito é exaltar a Cristo. Jesus disse: “Porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (João 16:13,14). Cristo é o sol; o Espírito o brilho do sol. Cristo é o dínamo; o Espírito a eletricidade. Cristo é a videira; o Espírito é o fluído vital, a seiva. Cristo é o objeto sendo fotografado; o Espírito é a luz viajando do objeto até o filme na câmera. O Espírito é o meio, mensageiro e condutor. Mantenha seus olhos sobre a face de seu Senhor glorificado e você será “transformado de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Coríntios 3:18).

 

 

III. Atos do Cristo que Ascendeu

 

Os Atos dos Apóstolos são na verdade os atos do Cristo que ascendeu aos céus. Embora os Atos falem sobre Pedro e Paulo, Jerusalém e Antioquia, e a pregação do evangelho aos judeus e gentios, Cristo é o principal personagem nesse livro. No Evangelho, Lucas contou tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar até Sua ascensão ao céu (Atos 1:1,2). Em Atos, Lucas contou o que Jesus continuou a fazer e ensinar depois que Ele ascendeu ao céu.

 

Enviando o Seu Espírito para a vida dos discípulos, Cristo estava apto a continuar a obra neles. Durante seu ministério terreno, Ele esteve com os Seus discípulos; durante Seu ministério celestial, Ele está dentro de Seus discípulos. Através do Seu Espírito, Cristo foi capaz de completar a Sua revelação da verdade para os discípulos, habilitá-los a lembrar dos eventos de Seu ministério terreno e escrever um registro permanente dessas coisas nas escrituras do Novo Testamento. Através do Seu Espírito, Cristo deu poder aos Seus discípulos para operar milagres de maneira a confirmar suas palavras (Marcos 16:20; Hebreus 2:3,4). Através de Seu poder, Cristo foi capaz de dirigir o curso de Sua Igreja de forma que ela cumprisse o propósito que Ele pretendia para ela. Através do Seu Espírito, Cristo foi capaz de transformar a vida dos discípulos. E que transformação! Paulo, o principal dos apóstolos, reconheceu: “Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Nosso Senhor converteu e transformou Paulo, e lhe revelou as doutrinas da salvação e os mistérios da dispensação da Igreja. Cristo trabalhou na vida de Paulo a cada passo do caminho. A vida de Cristo em Paulo realizou um grande sucesso espiritual no mundo do primeiro século.

 

 

IV. A Obra de Cristo Hoje

 

Nosso Senhor continua a operar em Sua Igreja hoje. Alguns homens acreditam que Cristo trabalhou com a Igreja primitiva até que Ele teve certeza de que ela teria um princípio bem-sucedido e então a deixou por sua própria força e destino. No Pentecostes, nosso Salvador não deu corda na Igreja como num relógio esperando que de alguma forma ela continuasse a trabalhar até que Ele retorne. Se a Igreja é em tudo como um relógio, ela é como um relógio eletrônico, não como um mecânico. Alguém pode dar corda em um relógio mecânico e esquecer até que ele pare, mas um relógio eletrônico requer energia elétrica a cada segundo de funcionamento. Da mesma forma, a Igreja não tem poder e a vida cristã vitoriosa é impossível, a menos que se mantenha uma constante conexão com Cristo.

 

Os homens que ignoram a direção de Cristo para Sua Igreja através do Espírito falham em reconhecer a relação vital de Cristo com Seu povo. A Igreja não é uma organização; ela é um organismo. A Igreja não é uma instituição humana inanimada; é uma entidade viva tendo uma união orgânica com Seu Fundador e Guia. Jesus disse: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). Cristo é o Fundador e o Construtor da Igreja. O seu sucesso é garantido pela certeza de quem está fazendo a obra. Os trabalhadores cristãos são a tripulação do navio, mas Cristo permanece no leme guiando o curso de Sua Igreja. Um trabalhador planta, outro rega, mas ainda assim é o Senhor que dá o crescimento (1 Coríntios 3:6). O Senhor continua a acrescentar à Igreja diariamente os que hão de se salvar (Atos 2:47).

 

A questão é: “Jesus trabalha através de Seu Espírito na Igreja de hoje?” Esta pergunta é respondida afirmativamente por três verdades Bíblicas: 1) Jesus trabalha na Igreja hoje; 2) O Espírito Santo é o poder através do qual Jesus opera; 3) Promessas do Espírito são endereçadas a todos os crentes.

 

Jesus prometeu: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mateus 28:20). A compreensão desse verso é “até a consumação dos séculos”. Nosso Senhor estava fazendo uma falsa promessa? Jesus fez essa promessa sabendo que quando as coisas começassem a correr bem, Ele escaparia quando ninguém estivesse olhando? Não, Jesus quis dizer exatamente o que disse. A obra de nosso Salvador na Igreja não estava limitada a alguns poucos anos e a um pequeno grupo de pessoas durante o primeiro século. Cristo continua trabalhando em Sua Igreja em toda a era da Igreja. Cristo pode ter mudado a maneira de trabalhar de um século para outro, mas Ele nunca mudou o fato de Sua obra. O trabalho de Cristo em Sua igreja através do Espírito é uma realidade atual bem como um fato histórico. O Pentecostes não foi o final da obra de Cristo através de Seu espírito, foi simplesmente o princípio.

 

As promessas do Espírito foram dirigidas a todos os crentes. Jesus disse: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós” (João 14:16,17). A obra do Espírito não estava limitada a uma geração; mas habitaria na Igreja para sempre. As palavras de Pedro no Pentecostes foram dirigidas aos homens de todas as eras da Igreja. Ele disse: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar” (Atos 2:38,39). Todo pecador que se arrepende e é batizado entra em Cristo; ele está em posição de receber o dom do Espírito Santo de Deus. Essa promessa não estava limitada aos homens que ouviram as palavras de Pedro. Foi prometido “a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar”. Isso inclui a você e a mim. Isso inclui todas as nações e gerações da era da Igreja.

 

 

V. Dons e Fruto do Espírito

 

A Teologia do Novo Testamento faz distinção entre dons do Espírito e fruto do Espírito. Dons do espírito foram habilidades sobrenaturais outorgadas aos trabalhadores cristãos para que fizessem Sua obra. O fruto do Espírito é a semelhança de Cristo produzida na vida do crente através da habitação de Cristo nele mediante Seu Espírito. Dons do Espírito estavam associados com o que os cristãos faziam; fruto do Espírito estava associado ao que eles se tornavam. Dons do Espírito eram externos e temporários; fruto do Espírito era interno e permanentes. Possuir dons do Espírito era opcional; ter o fruto do Espírito era essencial. Dons do Espírito, portanto, eram inferiores ao fruto do Espírito.

Existe uma diferença entre o “dom do Espírito” (Atos 2:38) e “os dons do Espírito” (1 Coríntios 12:4-13). O dom do Espírito Santo é para todo crente; é o dom de Deus, que é o Espírito Santo. Os dons do Espírito, por outro lado, são dons que resultam do exercício do Espírito de Cristo na vida de alguns de Seus obreiros. O dom do Espírito é o Espírito em Si. Os dons do Espírito são os milagres produzidos pelo Espírito.

 

Todo cristão deve ter o Espírito em Sua vida. Paulo advertiu: “Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Romanos 8:9). Todo cristão deve permitir que Cristo trabalhe em sua vida através do Seu Espírito, dando-lhe poder para a obra e o fruto do Espírito. Todo crente, portanto, deve ter o dom do Espírito (Atos 2:38,39) e permitir que esse poder produza o fruto do espírito (Gálatas 5:22,23) em sua vida. Entretanto, os crentes hoje não precisam ter os dons do Espírito (1 Coríntios 12). O movimento pentecostal moderno insiste que todo cristão deve possuir os dons do Espírito, especialmente o dom de línguas. Eles afirmam que esse é o único meio para alguém confirmar se ele tem o Espírito. Nós respondemos que não são os dons do Espírito, é o fruto do Espírito que é a evidência através da qual alguém saberá se Cristo está trabalhando em sua vida através do Seu Espírito.

 

Os dons do Espírito foram designados para preencher as necessidades da expansão histórica da Igreja. O fruto do Espírito foi designado para preencher as necessidades da transformação interior dos membros da Igreja. Paulo declarou que os dons do Espírito (1 Coríntios 12) são inferiores ao amor, o principal fruto do Espírito (1 Coríntios 13). Os dons do Espírito foram temporários; o fruto do Espírito é permanente. Paulo disse: “O amor nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor” (1 Coríntios 13:8,13).

 

Alguns homens têm sido enganados neste pensamento que quando os dons do Espírito falham, cessam ou desaparecem, o Espírito em Si deixou de agir. Isso é completamente falso. Conceder poderes miraculosos foi apenas uma obra que Cristo fez através do Seu Espírito. O fato de que Ele finalizou uma fase de Sua obra não é indicação de que Ele encerrou toda a Sua obra. Cristo continua a trabalhar em Sua Igreja. Seu Espírito não habilita os crentes a fazerem milagres hoje, mas os habilita a experimentar a mudança de caráter. Os crentes de hoje não precisam operar maravilhas para serem espirituais, mas eles podem se tornar maravilhosos. Eles não necessitam de obras de milagres, mas eles podem se tornar milagres. Quando um vagabundo bêbado, estendido na sarjeta, é transformado pelo Espírito de Cristo em um ser limpo, cristão devotado, isso é um milagre de caráter. Quando um egoísta, angustiado e membro afastado da Igreja é transformado pelo Espírito de Cristo em um cristão generoso, gentil, amável e humilde, é isto que chamaríamos milagre. É isso que Cristo quer fazer hoje através do Seu poder transformador. Milagres do caráter são superiores aos milagres da natureza.

 

A água é uma das figuras usadas para simbolizar o Espírito de Deus porque, como a água, o poder de Deus transforma, deposita riquezas e produz poder. Como a água esculpe a superfície da terra e transforma a face do solo, o poder de Deus transforma o coração e a vida do crente. Como a água deposita terra e riquezas minerais, o poder de Deus deposita ricas bênçãos na vida do crente. Deposita riquezas de salvação e produz o fruto do Espírito. Como a água gira as turbinas e produz energia elétrica, o poder de Deus dá a capacidade de recuperação ao crente e força para o serviço cristão.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Capítulo XLVIII - O Ministério Celestial de Cristo


Capítulo XLVIII

O Ministério Celestial de Cristo

O estudo do ministério celestial de Cristo tem sido negligenciado por muitos estudantes da Bíblia. Muita ênfase tem sido dada sobre Seu ministério terrestre e sobre o novo ministério terrestre, mas pouca atenção se dá à obra que Cristo está fazendo hoje. Deveriam enfatizar igualmente o sangue de Cristo, o poder transformador de Cristo e o reinado futuro de Cristo.


I. A Ascensão de Cristo

Quarenta dias depois da Sua ressurreição, Jesus ascendeu ao céu. Seu ministério terreno tinha sido concluído; Seu ministério celestial começou. A ascensão de Cristo foi literal. Em Seu corpo real, material e imortal, Cristo literalmente partiu da terra, passou através do espaço e ascendeu ao trono de Deus no céu (Atos 1:9-12; Lucas 24:50-52; Marcos 16:19; Hebreus 4:14; 9:24; 1 Pedro 3:18,22; 1 Timóteo 3:16; Efésios 4:10; João 3:13; 16:7,10).

Alguns homens afirmam que a ascensão de Cristo não foi literal. Eles dizem que foi apenas simbólico de Sua exaltação. Eles declaram que depois que Cristo desapareceu da vista dos discípulos, Seu corpo desmaterializou-se e Ele evaporou no espaço. Eles dizem que hoje Jesus não tem corpo. Eles insistem que Ele existe somente na forma de um poder invisível. A Bíblia claramente ensina, porém, que Jesus tem hoje uma natureza física real, literal, material e imortal e que continuará a ter essa natureza através da eternidade.

O paraíso celestial é um lugar real e literal. Os astrônomos são incapazes de determinar a sua localização no céu; eles são incapazes de encontrá-lo com seus telescópios. Contudo, a Bíblia ensina que o céu é um lugar real, não meramente uma condição da existência transformada. Embora o poder de Deus permeie o universo, o próprio Deus está no céu no sentido de que Ele não está em outro lugar. O céu é o Seu trono. A Bíblia usa a palavra “céu” de três formas: 1) Céu refere-se à atmosfera que circunda a terra; nesse céu os pássaros voam; 2) Céu refere-se às estrelas e planetas (Salmos 19:1); 3) Céu refere-se ao lugar onde Deus habita e ao qual Jesus ascendeu.

A ascensão de nosso Senhor ao céu se tornou possível pela Sua natureza imortal e o poder de Deus. Se os homens tivessem que viajar poucas milhas no espaço, eles necessitariam de equipamento especial. Eles precisariam viajar em foguetes com velocidade suficiente para vencer a força da gravidade, precisariam usar trajes espaciais e levar oxigênio consigo. A habilidade de Cristo em cruzar o espaço e ascender ao trono de Deus, porém, não dependeu de qualquer equipamento. Esses fatores que seriam necessários para os homens mortais subirem no ar não tiveram influência sobre a natureza física imortal de Cristo.


II. Sua Exaltação e Glória

Quando o Cordeiro de Deus ressuscitado ascendeu ao céu, Ele foi exaltado e glorificado por Seu Pai. Cristo é a pessoa mais exaltada e gloriosa do universo, ao lado de Deus. À destra de Deus, Jesus é exaltado sobre toda a criação. Ele ocupa a mais alta posição favorecida na presença de Deus. No Seu ministério celestial, Ele é visto como estando de pé ou sentado à mão direita de Deus (Salmos 110:1; Daniel 7:13,14; Marcos 16:19; Atos 2:33,34; 5:31; 7:55,56; Romanos 8:34; Efésios 1:20-23; Filipenses 2:9-11; Colossenses 3:1; Hebreus 1:3; 2:9; 8:1; 10: 12;12:2; 1 Pedro 3:22; Apocalipse 3: 21.) A exaltação de Cristo resultou de Sua perfeita obediência a Deus e Sua morte sacrificial. “... assim como eu venci e me assentei com meu Pai no Seu trono” (Apocalipse 3:21). “O qual pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hebreus 12:2). Quando alguém considera a glória e a excelência desse maravilhoso Salvador, pode entender porque os crentes através dos séculos têm elevado seus corações em Sua adoração e louvor.

III. Cabeça da Igreja

Cristo é exaltado como cabeça da Igreja. “E ele é a cabeça do corpo da Igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Colossenses 1:18). “E sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre todas as coisas, o constituiu como cabeça da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” (Efésios 1:22,23). “Antes seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4:15,16). Como cabeça da Igreja, Cristo é Governante e Senhor. Ele é a fonte da vida do corpo. Ele é o centro de sua unidade. Como corpo de Cristo, a Igreja deve submeter-se ao Seu governo, seguir Seus ensinos e obedecer Suas instruções.


IV. Senhor dos Crentes

Exaltado à destra de Deus, Jesus é o Senhor dos crentes. Pedro disse: “De sorte que, exaltado pela destra de Deus e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis. Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2:33,36). Paulo escreveu: “Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho... e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:9–11). Nosso Salvador é Senhor e Mestre do crente. Ele exerce autoridade sobre os cristãos. Ele deve ser honrado e obedecido. A salvação é dependente do reconhecimento e obediência a Jesus como Senhor (Hebreus 5:9). Na conversão, os pecadores O aceitam como O Senhor Jesus Cristo (Atos 16:31; Romanos 10:9). Os cristãos confiam em Cristo como Sacrifício; eles O obedecem como Senhor. O Mestre disse: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (João 15:14). “Se alguém me ama, guardará a minha palavra” (João 14:23).


V. A Obra Celestial de Cristo em Favor dos Crentes

1. Sumo Sacerdote. No céu, à destra de Deus, Jesus está fazendo uma obra em favor do crente. Sua obra celestial pelos crentes está incluída na Sua posição como Sumo sacerdote. Como Sumo sacerdote, Cristo é o representante do homem na presença de Deus. Por causa do pecado, o homem não pode se colocar sozinho diante da santa presença de Deus. Como um pecador, ele está sob condenação; ele merece destruição. Deus, por meio da graça, autorizou Seu Filho perfeito, o homem Jesus Cristo, a Se tornar o Substituto e Representante do pecador. O pecador, entretanto, pode ter acesso à santa presença de Deus através da pessoa e obra de Cristo, seu Sumo sacerdote.

Jesus cumpriu todos os requisitos da escritura para um sacerdote. Ele foi tomado entre os homens para os representar na presença de Deus (Hebreus 5:1,2; 2:16; 4:15). Ele foi escolhido e autorizado por Deus (Hebreus 5:4-6). Ele era perfeitamente santo, sem pecado (Lucas 1:35; Hebreus 7:26; 2 Coríntios 5:21). Ele tinha o direito de acesso imediato à presença de Deus. Ele estava apto a oferecer sacrifício e fazer intercessão eficaz pelos pecadores.

Sob a lei Mosaica, a tribo de Levi foi selecionada para servir como sacerdócio para Israel. Os levitas representavam Israel na presença de Deus. Eles serviram no tabernáculo e mais tarde no templo. O sacerdócio dos levitas e o sacrifício dos animais que eles ofereciam eram temporários. Eles eram típicos e proféticos de Cristo, que é o único sacerdote verdadeiro e o único sacrifício real. Eles eram apenas sombras da realidade completamente suficiente. Os sacrifícios de animais e sacerdócios de homens não são necessários hoje. Nada é permitido ficar entre o crente e Deus, exceto Jesus Cristo e Seu sacrifício.

A obra de Cristo como Sumo sacerdote é explicada em detalhes na Epístola aos Hebreus. Escrita poucos anos antes da destruição de Jerusalém, a exposição teve a intenção de mostrar que o Cristianismo não é dependente do templo, do sacerdócio Levítico e do sacrifício de animais. O Cristianismo está centrado na pessoa de Cristo. Ele é o verdadeiro templo; Ele é o único Sumo sacerdote perfeito; Ele é o único que ofereceu um sacrifício eternamente eficaz.

O sacerdócio de Cristo é superior ao dos Levitas. Os Levitas eram homens; Jesus é o Filho de Deus. Eles eram pecadores que necessitavam primeiro oferecer sacrifícios por si mesmos; Jesus é santo, inocente e honesto (Hebreus 7:26,27). Os Levitas eram muitos em número; Ele é um (Hebreus 7:23). Eles morreram; Ele é Sumo sacerdote para sempre (Hebreus 7:24). O sacerdócio deles mudou; o d’Ele é imutável (Hebreus 7:24). Eles eram consagrados sacerdotes sob a lei Mosaica, sem um juramento; Ele foi consagrado sacerdote pelo juramento de Deus (Hebreus 7:20-22). O sacrifício de animais oferecido pelos Levitas não poderia limpar do pecado (Hebreus 10:4); o sacrifício de Cristo foi oferecido uma vez e é eternamente eficaz (Hebreus 9:25-28; 10:10,12,14). O sacerdócio de Cristo faz a certeza de um pacto melhor e associado a um tabernáculo mais perfeito do que era o dos Levitas (Hebreus 7:22; 8:6; 9:11-24).

Enquanto Cristo cumpriu o significado típico do sacerdócio Levítico, Ele foi um sacerdote, não segundo a ordem dos Levitas, mas segundo a ordem de Melquisedeque. Melquisedeque era um sacerdote apontado diretamente por Deus, a quem Abraão pagou o dízimo e de quem ele recebeu a bênção (Gênesis 14:18-20). Como Melquisedeque, Cristo é um sacerdote real, cuja posição como sacerdote não depende da descendência (Salmos 110:4; Hebreus 7:1-3).

2. Intercessor. A obra de Cristo como Sumo Sacerdote é dupla: sacrificial e intercessória. Ele é o Sacrifício e o Intercessor. A obra sacrificial de Cristo foi tipificada pelo sacrifício de animais oferecido sobre o Altar das Ofertas Queimadas; Sua obra intercessora foi tipificada pelo incenso que queimava continuamente sobre o Altar do Incenso. As brasas de fogo sobre o Altar de Incenso eram tomadas do Altar das Ofertas Queimadas. A Intercessão de Cristo é baseada no Seu sacrifício.

A apresentação de Si mesmo como Sacrifício foi a principal obra de nosso Sumo Sacerdote durante o Seu ministério terreno. Oferecer intercessão pelos crentes é Sua obra primária durante o Seu ministério celestial. “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hebreus 7:25). “Quem os condenará? Pois é Cristo quem morreu ou, antes, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós” (Romanos 8:34). Cristo faz intercessão pelos crentes através de Seu poder, o Espírito (Romanos 8:26,27).

3. Advogado. Associado à obra como Intercessor está a Sua obra como Advogado. Como Intercessor, a obra de Cristo está relacionada com a fragilidade, o auxílio e a imaturidade do crente. Como Advogado, a obra de Cristo está relacionada com os pecados dos crentes. O crente tem assegurado o favor diante dos olhos de Deus porque Cristo é Seu Advogado. Jesus como Advogado responde as acusações do acusador. “E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora chegada está a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derribado, o qual diante do Deus os acusava de dia e de noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho...” (Apocalipse 12:10,11). Cristo como Advogado pleiteia os méritos de Seu sacrifício em benefício do crente. “E, se alguém pecar, temos um advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:1,2). A palavra grega para advogado é traduzida como “Consolador” em João 14:16,26; 15:26; 16:7. Um consolador é aquele que é chamado ao lado para auxiliar.

Como Advogado, portanto, Cristo pleiteia os méritos de Seu sacrifício em relação aos pecados dos crentes. Como Intercessor, Ele roga e intercede na fragilidade do crente e em seu auxílio. O reconhecimento cristão da obra de Cristo como Intercessor resulta em sua entrada nesses benefícios. Visto então que nós temos um Sumo sacerdote, que é Advogado e Intercessor, “cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16). “Portanto, ofereçamos sempre, por ele, a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).


VI. Sua Obra no Interior dos Crentes

Durante Seu ministério celestial, nosso Senhor não está somente fazendo a obra pelos crentes, mas também dentro dos crentes. Como Intercessor e Advogado, Jesus está fazendo algo pelos cristãos; como o Senhor que em nós habita, Ele está fazendo algo dentro dos cristãos. Hoje, nosso Salvador exerce uma influência transformadora na vida dos crentes que se rendem ao Seu domínio. O meio pelo qual Cristo atua dentro do cristão é o Seu poder invisível, o Espírito Santo. Através do Seu Espírito, Jesus habita no crente e lhe dá poder para o serviço e o fruto do Espírito. O objetivo da obra de Cristo é a transformação do caráter e da conduta do crente à Sua semelhança moral. A obra de Cristo através de Seu Espírito será considerada mais amplamente no próximo capítulo.


VII. Duração do Ministério Celestial de Cristo

Nosso Senhor permanecerá no céu até que retorne à terra. “E envie ele a Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado, o qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio” (Atos 3:20,21). Os anjos anunciaram: “Varões galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (Atos 1:11). A segunda vinda de Cristo marcará o fim de Seu ministério celestial e o princípio de Seu novo ministério terreno.