sexta-feira, 7 de abril de 2017

Capítulo XLIV - A Crucificação


Capítulo XLIV

A Crucificação

A crucificação foi uma pena de morte usada pelos romanos para a execução de escravos, estrangeiros e dos piores criminosos. Era a morte mais agonizante e humilhante que aquele tempo cruel poderia imaginar. Pregos eram atravessados nas mãos e nos pés da vítima. O crucificado era deixado suspenso na cruz em agonia, faminto e exposto. A crucificação era uma morte prolongada; era comum demorar de três a seis dias para a vítima morrer. Nosso Salvador, porém, morreu depois de apenas seis horas na cruz. Pilatos ficou admirado por Ele ter morrido tão rapidamente. Sob a lei judaica, os crucificados eram malditos de Deus (Deuteronômio 21:23; Gálatas 3:13).

A crucificação de Jesus ocorreu fora da cidade de Jerusalém, numa colina chamada Gólgota (João 19:17) e Calvário (Lucas 23:33). Jesus morreu no décimo quarto dia do mês Judaico de Nisã, às 3 horas da tarde. Ele tinha 33 anos e seis meses de idade. Tibério César era o imperador de Roma; Pôncio Pilatos era o governador da Judeia; Herodes Antipas era o tetrarca da Galileia; Anás e Caifás eram os sumo sacerdotes judeus (Lucas 3:1,2).

A execução de Jesus foi contrária à justiça. Ele nada fez para merecer a morte; Ele era inocente. Os líderes religiosos judeus, sumo sacerdotes, anciãos e escribas, foram os instigadores do plano de mandá-Lo para a morte. Esses líderes tinham inveja da popularidade de Cristo entre o povo comum. Eles odiaram a Luz do Mundo porque as suas obras eram más (João 3:19,20).

A crucificação de nosso Senhor foi precedida pela Sua entrada triunfal em Jerusalém, Seu discurso no Monte das Oliveiras, a última Ceia, a instituição da Santa Ceia, Sua traição, Sua agonia no Getsêmani, Sua prisão, Seus cinco julgamentos (Sinédrio, Sinédrio, Pilatos, Herodes e Pilatos) e Seu sofrimento por açoitamento e escárnio.


I. Tragédia e Sacrifício

A crucificação de Cristo deve ser reconhecida de duas formas: como tragédia e sacrifício. Deve ser considerada do ponto de vista do homem e do ponto de vista de Deus.

Antes de tudo, a crucificação de Cristo foi o maior crime de todas as eras. Os homens assassinaram o perfeito e imaculado Filho de Deus. Ele foi rejeitado pelos judeus, traído por Judas, condenado por Herodes e crucificado pelos Romanos sob o comando de Pilatos. A tragédia do Calvário é, sem dúvida, a mais negra página da história do homem. Um crime mais trágico não pode ser imaginado. Por outro lado, porém, a crucificação de Cristo foi o evento mais maravilhoso que já ocorreu sobre a terra. Foi o momento mais sublime no plano de salvação de Deus. No momento em que os homens estavam assassinando o Filho de Deus com ódio, Deus estava sacrificando Seu Filho por amor. Em Cristo, Deus estava reconciliando o mundo consigo (2 Coríntios 5:19). Quão gratos são os crentes porque Deus deu o Seu Filho em sacrifício por eles! A Velha Rude Cruz, portanto, foi a cena de ambos: assassinato e sacrifício. Foi uma morte por dois motivos. Os homens tinham tanto ódio que assassinaram; Deus estava tão cheio de amor que Ele deu. Ambos ocorreram ao mesmo tempo.

Os lados divino e humano da cruz são mencionados juntos por Pedro em Atos 2:23. O verso está dividido em duas partes. “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus” - isso foi o que Deus fez. “Tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos dos injustos” - isso foi o que os homens fizeram. O crime do homem é mencionado em Atos 4:27: “Porque, verdadeiramente, contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel”. O presente do amor de Deus é mencionado no próximo verso em Atos 4:28: “Para fazerem tudo o que tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer”. Atos 3:13-17 refere-se ao crime da humanidade; Atos 3:18 refere-se ao sacrifício divino.

A salvação não está baseada no crime humano, mas sobre o presente do amor de Deus. O poder transformador da morte de Cristo não está na tragédia, mas no sacrifício. A salvação está baseada não sobre o que os homens fizeram, mas sobre o que Deus fez. Os homens são responsáveis somente pelo crime do Calvário; apenas Deus e Cristo são responsáveis pelo sacrifício do Calvário. Os assassinos de Cristo não compartilharam de forma alguma da gloriosa realização do sacrifício de Cristo. Os crentes não estão em débito com Judas Iscariotes porque ele traiu a Cristo. Eles não estão em débito com Pôncio Pilatos por permitir que Ele fosse crucificado. Somente Deus recebe a glória do Calvário. A salvação se tornou possível não pelo fato de que os homens assassinaram Cristo, mas pela gloriosa verdade de que Deus deu Seu Filho unigênito para ser Seu próprio Cordeiro sacrificial para tirar o pecado do mundo. “Não é a cruz de Cristo, mas o Cristo da cruz é que salva”.

O contraste entre a tragédia humana e o sacrifício divino estão na seguinte tabela:

Tragédia Humana                                                 Sacrifício Divino

Pior crime do homem                                          Maior Dom de Deus
Homens odiando a Cristo                                   Deus amando o mundo
Assassinato                                                              Sacrifício
Externo e visível                                                     Interno e visto por fé
Planejado pelos judeus                                        Planejado pelo Pai
Página mais negra da história                            Base da salvação
Homens culpados pelo crime                             Deus glorificado pela dádiva
A cruz de Cristo                                                       O Cristo da cruz

Como declarado anteriormente, as pessoas na escuridão, não regeneradas, nada podem entender sobre a morte de Cristo além da tragédia humana que foi, e em vão dedicam sincera atenção para investir nisso algum significado espiritual. Isso é dramatizado, crucifixos são multiplicados, quadros são pintados, pregadores e poetas alongam-se ao falar sobre os aspectos físicos da morte e frequentemente descobrem toda a angústia corporal que Ele passou. Entretanto, ninguém tem forjado maior confusão do que a Igreja de Roma pela sua afirmação da transubstanciação e a aproximação da idolatria que o seu uso de imagens proporciona. Roma é o supremo exemplo de uma religião baseada no crime da crucificação, que é, ao mesmo tempo, desprovida de qualquer concepção da glória da cruz. Existe uma tragédia na cruz, a qual ninguém poderia minimizar, mas este não é o terreno da redenção. Deus não está baseando Seu imenso dom de amar sobre o supremo crime de todos os crimes. Ele baseia isso sobre a sublime verdade de que Ele amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho unigênito para prover Seu próprio Cordeiro sacrificial. Cristo foi o Cordeiro de Deus, não de Pilatos. Deus providenciou o sangue remidor, e não Caifás (Chafer. Op. cit., vol. III, págs. 47,48).


II. O Sacrifício Voluntário de Cristo

Jesus se submeteu voluntariamente à crucificação. Por Sua própria vontade, Ele se entregou pelos pecadores. Ele disse: “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou” (João 10:18). O Cordeiro de Deus não foi compelido a ser o Sacrifício do homem. Ele voluntariamente escolheu a cruz por amor pelos homens. Então duas verdades estão unidas: Deus deu o Seu Filho e o Filho deu a si mesmo. O Filho de Deus “me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gálatas 2:20). “Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Efésios 5:2). “Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:25). Ele “deu a si mesmo por nós” (Tito 2:14). “Ele deu a sua vida por nós” (1 João 3:16). “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20:28). Isaías profetizou: “Ele foi oprimido, mas não abriu a boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como uma ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca” (Isaías 53:7).

Os judeus nunca poderiam ter prendido a Jesus, e os romanos nunca poderiam tê-lo crucificado se Jesus não tivesse se entregado voluntariamente a eles. Ao longo da semana da crucificação, Jesus é visto como o Mestre da situação. Ele mesmo colocou em movimento a cadeia de eventos que levou à crucificação quando Ele ressuscitou a Lázaro de entre os mortos, entrou em Jerusalém no meio da aclamação da multidão e defendeu a mulher que O ungiu com o unguento caríssimo na casa de Simão, o leproso. Quando a turba liderada por Judas Iscariotes veio até o Jardim do Getsêmani, Jesus, por vontade própria, entregou-Se nas mãos deles.

Os espectadores da crucificação desafiavam Jesus para que Se salvasse. A multidão gritava com zombaria: “Ah! Tu que derribas o templo e, em três dias, o edificas! Salva-te a ti mesmo e desce da cruz” (Marcos 15:29,30). Os líderes judeus zombavam: “Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo” (Marcos 15:31). Os supersticiosos pensaram que Jesus chamava por Elias e disseram: “Deixai, vejamos se virá Elias tirá-lo” (Marcos 15:36). Os soldados disseram: “Se tu és o Rei dos judeus, salva-te a ti mesmo” (Lucas 23:37). Um dos malfeitores que estava sendo crucificado com Ele disse: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós” (Lucas 23:39). Todos clamavam: “Salva-te”. Eles deveriam ter clamado “Salva-nos”. Não que Jesus não pudesse salvar a Si mesmo; mas Ele não deveria salvar a Si mesmo. Jesus poderia salvar-Se da crucificação, mas Ele não queria salvar a Si mesmo. Ele queria entregar-Se à morte em sacrifício pelos pecadores. Jesus sabia que se Ele salvasse a Si mesmo, Ele não salvaria os demais. Ele estava determinado a morrer pelos pecados do mundo.


III. O Amor e a Graça de Deus

A morte sacrificial de Cristo revelou o amor de Deus e de Cristo pelos pecadores. O plano de salvação de Deus através do sacrifício de Seu Filho foi um ato de graça. Foi um ato de amor sem paralelo o consentimento de Cristo em carregar os pecados dos homens. O Pai não estava obrigado a prover um sacrifício pelos pecadores, e o Filho não era obrigado a ser esse sacrifício.

Os pecadores não merecem ser salvos; eles são dignos de morte. Deus poderia ter destruído cada pecador e eles teriam recebido o que mereciam. Deus por amor, porém, deu aos homens o que eles não mereciam. Ele lhes ofereceu a salvação através de Seu Filho, Jesus Cristo. Isso é a graça! Graça é o amoroso dom gratuito de Deus em relação às necessidades do homem pecador.

Antes de tudo, Deus revelou o Seu amor no fato de que não destruiu a raça humana no momento em que Adão e Eva pecaram. Deus em misericórdia, graça e longanimidade postergou o momento em que a pena do pecado será aplicada. Deus “adiou” a execução da pena do pecado até a destruição do ímpio na segunda morte. Ele impediu a punição para dar aos pecadores a oportunidade de arrependimento.

A suprema revelação do amor de Deus pela humanidade foi a oferta de Seu Filho como sacrifício. Não se pode imaginar um amor maior do que este demonstrado por Deus no Calvário (1 João 4:9,10; Romanos 5:6-8; João 3:16; 1 João 3:16).


IV. Singularidade da Morte de Cristo

A morte de Cristo é única. Permanece isolada, como um evento singular na história dos homens. Nunca houve uma morte como a d’Ele. O Seu sacrifício nunca poderá ser duplicado; Seu sofrimento nunca poderá ser igualado. A singularidade de Sua morte consiste no seu propósito, importância e Seu infinito valor como Filho de Deus. Outros sofreram a crucificação; muitos experimentaram tortura agonizante. Além disso, incontáveis homens inocentes foram executados injustamente. A morte de Cristo é única, não porque Ele morreu como mártir ou experimentou uma morte humilhante, mas porque somente Ele é o Cordeiro de Deus que morreu pelos pecados do mundo. Sua morte não foi simplesmente um martírio; foi um sacrifício.

Jesus é o único Mediador entre Deus e os homens. Somente a Sua morte é a base da reconciliação. Se os homens rejeitam o Cristo da cruz, já não resta nenhum sacrifício para eles. Ele é o único caminho a Deus. Fora d’Ele não há salvação. 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Capítulo XLIII - A Morte de Cristo


Capítulo XLIII

A Morte de Cristo

O Cristianismo, diferente das outras religiões, está baseado primariamente sobre a morte de seu Fundador. O sacrifício de Cristo é o tema fundamental do evangelho (1 Coríntios 15:1-4). Paulo declarou: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Coríntios 2:2). Ele explicou: “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1 Coríntios 1:18). A história da salvação brota do madeiro da cruz e de uma sepultura vazia.

A cruz era o objetivo do ministério terreno de Cristo. Jesus nasceu para morrer. Em certo sentido, Ele nasceu “crucificado”. A sombra da cruz estendeu-se pelos anos até a manjedoura de Belém. “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1 Timóteo 1:15). “Ele se manifestou para tirar os nossos pecados” (1 João 3:5). “Agora, na consumação dos séculos, uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26). No princípio de Seu ministério, Ele foi revelado como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Nosso Salvador explicou: “O Filho do Homem veio... para dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10:45).

O sacrifício de Cristo é essencial para a salvação. É um importante fator no plano eterno de Deus. Se Jesus não houvesse morrido como um Sacrifício, a humanidade não teria um Salvador. Todos os homens são pecadores e dignos de destruição. Além disso, eles não são aptos a se salvarem pelas suas próprias obras. Jesus é a única pessoa qualificada para ser o sacrifício do homem; sem a Sua morte, portanto, não pode haver salvação. “... se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (João 12:24). Os santos do Antigo Testamento foram capazes de experimentar a salvação porque os benefícios do sacrifício de Cristo alcançaram o passado e cobriram seus pecados. O sacrifício de animais somente apontava para frente para o Seu suficiente sacrifício.


I. Profecias do Antigo Testamento

Existem duas importantes profecias sobre a morte de Cristo no Antigo Testamento: Salmos 22 e Isaías 53. Esses dois capítulos são complementares; eles formam um conjunto. Eles são duas metades de uma imagem completa. Salmos 22 prediz os detalhes históricos da morte de Cristo; Isaías 53 explica o significado doutrinal de Sua morte. Salmos 22 narra Sua trágica crucificação; Isaías 53 revela Seu amável sacrifício. Salmos 22 diz como Jesus morreu; Isaías 53 explica porque Jesus morreu. Salmos 22 é narrado como se o Próprio Crucificado estivesse falando. Cristo é referido na primeira pessoa do singular (eu, meu, mim). Isaías 53 é narrado como se o observador da crucificação estivesse falando. Cristo é referido por pronomes na terceira pessoa do singular (ele, dele, nele). O estudo detalhado desses dois capítulos é imensamente recompensador.

1. Salmos 22. Estude especialmente versos 1, 6-8, 14-18, 22 e 25-31 do Salmos 22. Observe a maravilhosa previsão sobre as palavras de Cristo na cruz (verso 1), o fato de que Ele foi desprezado (verso 6), o escárnio do povo (versos 7 e 8), os resultados físicos da crucificação (verso 14), o fato de que Ele sentiu sede (verso 15), o fato de que Suas mãos e pés foram furados e que Ele foi cercado por malfeitores (verso 16), Sua nudez parcial (verso 17), lançaram sorte pelas Suas vestes (verso 18). O restante desse capítulo está relacionado aos resultados espirituais de Seu sacrifício.

2. Isaías 53. Isaías tem sido descrito como uma caixa de joias do Antigo Testamento, e Isaías 53 é a joia dessa caixa. É possivelmente o capítulo mais importante no Antigo Testamento. Apresenta uma explanação e descrição gráfica do sacrifício de Cristo. Cristo é descrito como nosso Substituto. Sua morte foi uma oferta pelo pecado, uma satisfação para a santidade de Deus. É o meio pelo qual os crentes são justificados e reconciliados com Deus.

Profecias adicionais do Antigo Testamento sobre a morte de Cristo incluem: Gênesis 3:15; Daniel 9:26 e Zacarias 13:7.


II. Tipos do Antigo Testamento

O Antigo Testamento é abundante em incidentes que simbolizam e apontam para a morte de Cristo. Tipos podem ser utilizados para ilustrar, mas talvez não possam ser usados para provar a verdade bíblica. Numerosos objetos e homens no Antigo Testamento são empregados pelos estudiosos da Bíblia como tipos da morte de Cristo. Nós sentimos que uma consideração das cinco principais e nítidas figuras da morte de Cristo seja de maior valor que a consideração de tipos que dão abertura a questionamentos ou requerem a força da imaginação.

Uma outra palavra sobre os tipos bíblicos é que nem todos os detalhes de um incidente ou objeto da Bíblia necessariamente fazem parte do tipo. Alguns ensinos ridículos e fantásticos têm resultado de estudiosos bíblicos que “pressionam” demais os tipos em busca de significados típicos em detalhes. Ao comprovar a doutrina pelos textos e ilustrar a doutrina por meio de tipos, é melhor selecionar poucos textos fortes e poucos tipos nítidos do que confundir as pessoas com uma infinidade de textos e tipos que sejam obscuros.

1. O Cordeiro de Abel. “E aconteceu, ao cabo de dias, que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou” (Gênesis 4:3-5). O Senhor aceitou a oferta de Abel, mas rejeitou a oferta de Caim. Abel era justo e tinha fé (Hebreus 11:4). Ele trouxe um sacrifício de sangue (Hebreus 9:22). Caim era injusto, não tinha fé e trouxe um sacrifício sem sangue. O cordeiro de Abel tipifica o sangue do sacrifício do Cordeiro de Deus.

2. Abraão Oferecendo a Isaque. O segundo maior tipo da morte de Cristo na Bíblia está registrado em Gênesis 22. Em obediência a Deus, Abraão tomou Isaque, seu único filho, e o levou para a terra de Moriá para oferecer como oferta queimada. Quando a fé de Abraão foi demonstrada, a vida de Isaque foi poupada e um carneiro foi oferecido em seu lugar. Nesse tipo, Abraão representa Deus; Isaque representa Jesus, o Filho unigênito de Deus. O fato de Isaque ter carregado a lenha para a oferta queimada, tipifica Cristo carregando a Sua cruz. O fato de Isaque obedientemente permitir o seu idoso pai oferecê-lo é uma figura de Cristo oferecendo-Se voluntariamente em sacrifício. A diferença entre o tipo e o antítipo é que Cristo efetivamente morreu e Isaque não morreu.

3. O Cordeiro Pascal. Ao libertar Sua nação da escravidão Egípcia, Deus trouxe uma série de pragas sobre o Egito. As pragas tinham como objetivo persuadir o Faraó a libertar os israelitas, enfatizar aos israelitas o preço de sua redenção e mostrar que as deidades egípcias não tinham poder. A décima e última praga foi a morte dos primogênitos (Êxodo 11:4-7).

Os israelitas foram salvos dessa praga pela provisão feita pelo sangue do cordeiro pascal (Êxodo 12:3-14). Cada família deveria selecionar um cordeiro no décimo dia do mês. No décimo quarto dia o cordeiro seria imolado e o seu sangue espargido sobre a verga da porta na casa em que a família iria comer o cordeiro assado. Quando o anjo da morte visitou o Egito e trouxe morte aos primogênitos, ele não parou nas casas dos israelitas; o anjo da morte passou sobre elas (no inglês: passed over). O cordeiro, portanto, foi chamado cordeiro Pascal (passover lamb), e a festa anual comemorando o evento foi chamada a Festa da Páscoa (Passover Feast).

O Cordeiro Pascal é uma figura de Jesus, o imaculado Cordeiro de Deus, sacrificado pelos primogênitos, a Igreja. “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Coríntios 5:7). Como o cordeiro Pascal, Jesus era “sem mácula, um macho de um ano”. Ele foi imolado por “todo o ajuntamento da congregação de Israel” no mesmo dia e hora, assim como foi com o cordeiro Pascal. O fato de o cordeiro ser assado retrata o sofrimento de Jesus. O pão não fermentado mostra que Ele não tinha pecado; as ervas amargas, Sua aflição. O fato de que o cordeiro deveria ser assado “a cabeça com os pés, e com a fressura” tipifica que nenhum osso do corpo de Cristo foi quebrado. Os israelitas no Egito representam os pecadores sob a escravidão do pecado. Os pecadores estão sentenciados à destruição na segunda morte. Deus providenciou a sua redenção através do sangue de Cristo. Para experimentar a redenção, os pecadores devem reconhecer a Cristo como seu Cordeiro Pascal e apropriarem-se dos benefícios advindos de Seu sacrifício, revestindo-se d’Ele. O fato de os israelitas estarem na casa, estarem sob o sangue e banqueteando-se com o cordeiro assado, indica que o crente deve se revestir de Cristo e alegrar-se n’Ele, que sofreu como seu Substituto.

4. Altar de ofertas queimadas. O altar das ofertas queimadas no tabernáculo e posteriormente no templo é um tipo do sacrifício de Cristo. O altar foi construído em madeira e era coberto de bronze; bronze é um símbolo Bíblico de julgamento pelo pecado. Animais mortos e queimados sobre o altar figuram Jesus. O fato de que a pessoa que oferecia o sacrifício imolado colocava suas mãos sobre a cabeça do animal tipifica a identificação do crente com Cristo e sua fé n’Ele.

5. Serpente de bronze. No deserto, Deus enviou serpentes mortais para picar os israelitas como punição pelos seus murmúrios contra Ele. Em resposta à oração de intercessão feita por Moisés, Deus instruiu que uma serpente de bronze fosse construída e colocada em um poste. Se um israelita que tivesse sido picado pela serpente olhasse para a serpente de bronze, ele viveria (Números 21:5-9).

A serpente de bronze é uma figura de Cristo na cruz. “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:14,15). As serpentes representam o pecado e a sua punição. O poste tipifica a cruz. A serpente tipifica a Cristo que levou nossos pecados (2 Coríntios 5:21). Olhar para a serpente de bronze tipifica o pecador olhando para o Cristo crucificado por fé. Olhando e crendo são sinônimos bíblicos.

6. Outros tipos da morte de Cristo. Outros objetos, incidentes e indivíduos no Antigo Testamento que tipificam o sacrifício de Cristo incluem: o animal que morreu para prover vestes de pele para Adão e Eva (Gênesis 3:21); a arca que protegeu Noé e sua família das águas do juízo porque foi selada com betume (Gênesis 6:14); a palavra hebraica para betume kaphar significa “expiação” ou “cobrir”; José, rejeitado por seus irmãos; a rocha, que trouxe água para os israelitas sedentos, ferida por Moisés no deserto (Êxodo 17:6; 1 Coríntios 10:4; Isaías 55:1); os dois bodes usados no Dia da Expiação, um sendo enviado ao deserto como bode emissário, e o sangue do outro bode sendo oferecido sobre o propiciatório no Lugar Santíssimo do tabernáculo; o véu do templo (Hebreus 10:20), as cinco oferendas de Levíticos 1-7; o sacrifício da novilha vermelha (Números 19:2); e a lei do parente remidor (Levíticos 25:47-54; Rute).


III. A morte de Cristo no Novo Testamento

A morte de Cristo é mencionada mais de 175 vezes no Novo Testamento. Visto que o Novo Testamento contém 7.959 versículos, significa que a grosso modo, no Novo Testamento, um verso a cada cinquenta refere-se à morte de Cristo. Mais de um quinto dos quatro evangelhos, que descrevem o ministério terreno de Cristo, é devotado à Sua morte e ressurreição.

O sacrifício de Cristo é o ensino central do Novo Testamento. Os quatro Evangelhos apresentam detalhes históricos da morte de Cristo. O Atos dos Apóstolos relata a história da aplicação dos benefícios de Seu sacrifício. O livro nos conta sobre os pecadores tendo seus pecados lavados por Seu sangue. As Epístolas explicam o significado doutrinário de Sua morte, elas dizem porquê Jesus morreu. O Apocalipse descreve a consumação da salvação tendo como base a morte do Cordeiro de Deus.

1. A Morte de Cristo nos Evangelhos. Nosso Senhor previu o fato de Sua morte: Mateus 16:21; 17:22, 23; 20:17-19; 26:12,31; João 2:19-21; 12:32,33. Jesus explicou o significado de Sua morte nos seguintes versos: Mateus 26:28; Marcos 12:24; Lucas 22:20; João 12:24,31,32; Lucas 24:46,47; Mateus 20:28; João 10:11,15,17; 15:13; 3:14-16; 6:51; 1:29.

2. A Morte de Cristo nos Escritos de Paulo. O sacrifício de Cristo ocupa o lugar mais importante na pregação e nos escritos de Paulo: Romanos 3:23-26; 4:25; 5:6-10; 6:3-6,10; 7:4-6; 8:3,4,32,34; 1 Coríntios 1:18,22-24; 5:7; 8:11; 15:3; 2 Coríntios 5:14-21; 8:9; Gálatas 1:4; 2:20; 3:13; 4:4,5; 6:14; Efésios 1:7; 2:13; 5:1,2, 25-27; Filipenses 2:8; 3:10; Colossenses 1:14,20-23; 1 Tessalonicenses 1:10; 4:14; 5:9,10; 1 Timóteo 2:5,6; 2 Timóteo 1:10; 2:8; Tito 2:14; Hebreus 2:9-18; 5:7,8; 7:27; 9:12,14,15,26,28;10:4, 10, 12, 19; 12:2; 13:12.

3. A Morte de Cristo nos Sermões e Cartas de Pedro. Pedro enfatiza a morte de Cristo em seus sermões: Atos 2:23; 3:14,15; 10:39; e em suas epístolas: 1 Pedro 1:2,18,19; 2:21-24; 3; 18; 4:1,13.

4. A Morte de Cristo nos Escritos de João. João, o apóstolo, revelou o Filho de Deus como o Cordeiro que morreu como sacrifício pelo pecador: João 1:29; 3:14-16; 6:51; 10:11; 11:49-52; 12:24,32,33; 15:13; 1 João 1:7; 2:2; 3:16; 4:10; Apocalipse 1:5; 5:6,9; 7:14; 13:8.


IV. Sete doutrinas de Salvação

As sete doutrinas ou elementos de salvação, considerados sob a Hamartiologia e Soteriologia, são baseadas na morte sacrificial de Cristo. Sem a Sua morte, a salvação seria impossível. Os três fatores da salvação são a Graça de Deus, a morte de Cristo e a fé do homem. A graça de Deus é a origem da salvação; a morte de Cristo é a base da salvação; a fé do homem é a condição da salvação. Cada uma das sete doutrinas da salvação está relacionada com a graça de Deus, a morte de Cristo e a fé do homem. Por exemplo, o homem é justificado pela graça de Deus (Tito 3:7), o sangue de Cristo (Romanos 5:9) e a fé do homem (Romanos 3:28). No momento, nosso interesse é observar a relação do sacrifício de Cristo com essas sete doutrinas de salvação.

1. Perdão. O perdão dos pecados se torna possível através do sangue de Cristo: Mateus 26:28; Lucas 24:46,47; Efésios 1:7; 1 João 1:7.

2. Justificação. Os crentes são justificados diante de Deus com base na morte de Cristo como seu Substituto: Romanos 3:25; 4:25; 5:9.

3. Reconciliação. O sacrifício de Cristo possibilita a reconciliação dos pecadores com Deus. A Sua morte removeu a inimizade entre o homem e Deus: Romanos 5:9-11; Efésios 2:16; Colossenses 1:20-23.

4. Redenção. Deus, o Redentor, compra no mercado os escravos do pecado com o sangue redentor de Seu Filho, que voluntariamente entregou Sua vida como o preço do resgate pelos pecadores: 1 Pedro 1:18,19; Tito 2:14; Romanos 3:24,25; 1 Timóteo 2:6; Mateus 20:28; Marcos 10:45; Efésios 1:7; Colossenses 1:14.

5. Santificação. Os pecadores são separados do mundo, são colocados sobre solo sagrado e se tornam interiormente puros através do sacrifício de Cristo: Hebreus 10:10,14; 13:12; Efésios 5:25,26.

6. Novidade de Vida. Os crentes se tornam novas criaturas e recebem novidade de vida porque Jesus morreu por eles e ressuscitou dos mortos para a imortalidade: 2 Coríntios 5:14-17; Gálatas 2:20; Romanos 6:3,4.

7. Adoção. Com base no sacrifício de Cristo, Deus adota os crentes, os quais eram estranhos a Deus e miseráveis, e os coloca numa posição de filhos adultos com todos os privilégios de herdeiros: Gálatas 4:5,6.